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  • PALAVRAS E CONCEITOS DA FILOSOFIA

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  • A ESCRITA FILOSÓFICA: como escrevem os filósofos?  como escrever filosofia?

  • A LEITURA FILOSÓFICA: como explicar textos? como interpretar textos?

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ATIVIDADES

Cursos, aulas, conferências, oficinas, orientações e revisões

Leituras, explicações  e discussões de livros, artigos, revistas e jornais, impressos ou virtuais, nacionais ou estrangeiros

Biblioterapia

Atendimento individual ou em grupos pequenos

FALAS e ESCRITOS

O professor Alfredo Fernandes ministrou palestras, conferências, cursos de curta, média e longa duração, aulas especiais, oficinas, no âmbito de debates, simpósios, colóquios, encontros, seminários e congressos, organizados por ele ou por outros, sobre temas pedagógicos, educacionais, psicológicos, filosóficos, literários e linguísticos nas universidades federais do Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso e Santa Catarina; nas PUC de São Paulo, do Paraná, de Brasília e de Campinas; na USP, UDF, Unijuí, Unisul, Univali, Unimep, Universidade Estadual de Ponta Grossa, UEM, Universidade de Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, Universidade de Genebra; nas secretarias estaduais de educação do Amazonas, Pará, Rondônia, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso; nas secretarias municipais de educação de Manaus, Belém, Porto Velho, Santarém, Natal, Maceió, Vitória, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Maringá, Aracaju,  Cuiabá, São Paulo, Cascavel, São José dos Campos, Lorena; em câmaras municipais e assembleias legislativas; em colégios de Belém, Manaus, Porto Velho,  São Paulo, São Luís, Teresina, Fortaleza, Recife, Maceió, Salvador, Brasília, Goiânia, Cuiabá, Curitiba, Varginha, Pouso Alegre, Ribeirão Preto, Campinas; no Programa Alfabetização Solidária, na Teia do Saber etc.   

 

Alguns títulos:

 

“A situação da infância e a educação pré-escolar no Brasil”

“A pré-escola é necessária ou dispensável?”   

“As funções da pré-escola”  

“Com criança não se brinca”  

“Contribuições de Piaget para a Educação Infantil”  

“Educação: despesa ou investimento?”  

“Disciplina? A construção da autonomia”  

“Por uma escola-antena...”  

“Por uma Pedagogia do Desejo...”  

“Por uma Pedagogia da Confiança...” 

“Por uma Pedagogia da Esperança...”   

“Escola para quê?”  

“Palavras da Pedagogia”  

“A ilusão da mudança  em Kilpatrick”  

“O avesso da liberdade para aprender ou o ardil  de Rogers”  

“Crítica filosófica da noção de ‘criatividade’”   

“Dewey: Filosofia ou Ideologia da Educação?”    

“A noção de moral em Durkheim”  

“Gusdorf: impasses e contradições”   

“Dever e liberdade em Kant”   

“A poética de Makarenko”  

“Dificuldades do ensino objetivo”  

“(Im) possibilidades do ato de ensinar-aprender”  

“Pode-se ensinar filosofia?”   

"Minha amiga Bärbel Elisabeth Inhelder"

“Como leio ?”  

“A fabricação do texto”  

“O caráter plural  da(s) Psicologia(s)”   

“O arquipélago filosófico”    

"Jacques Vonèche, Mestre e Amigo"

“Filosofia para quê?”   

“Aprender ou fazer Filosofia?”  

“A relação professor-aluno é necessariamente hierárquica?”   

“Os donos do poder e a educação”   

“As (difíceis) relações da escola com o Poder”  

“Elementos para uma metodologia de trabalho em Filosofia”  

“Contra a Pedagogia da Exclusão”  

“Porque me disseram que isto é uma Universidade...”   

“A Filosofia da ilha e outras filosofias...”  

“No começo era a ação...”  

“Conhecimento e Ação”   

“Primado da ação X primado da percepção: um diálogo entre Piaget e M. Merleau-Ponty”  

“Crítica piagetiana da psicologia filosófica”  

“Rever Piaget”   

“O discurso múltiplo de Piaget”  

“Leitura de Piaget”  

“A metáfora piagetiana”  

“Pode-se desnaturalizar a epistemologia de Piaget?”  

“O pluralismo metodológico de Piaget”    

“A retórica piagetiana”  

“Biologie et Connaissance: la métaphore piagétienne-um changement de paradigme philosophique”  

“A Epistemologia Genética de Piaget como método”  

“Psicologia e Filosofia em Jean Piaget”  

“Psicologia Genética e Conhecimento em Jean Piaget”  

“Conhecimento e verdade em Jean Piaget”  

“Palavras da(s) Filosofia(s): logos, razão, crítica, sujeito, objeto, representação, consciência, devir, Bem, Belo, Verdade, coisa-em-si, ser, parecer, empirismo, racionalismo, idealismo, realismo etc.”     

“Palavras da Psicologia”  

“A noção de Natureza em Piaget”   

“La place de L’épistémologie génetique dans l’oeuvre de Piaget”  

“Piaget: compromis et filiations”  

“Kuhn leitor de Piaget”  

“Como Habermas lê Piaget?”  

“História da Filosofia: método e metáfora”  

“A filosofia guerreira de Karl Popper”   

“A última razão do cético”  

“Le mirage du Collectif”  

“A linguagem poética e o discurso filosófico”  

“À mesure que je suis captivé par um livre. M. Merleau-Ponty”  

“A palavra criadora: reflexões sobre M. Merleau-Ponty”  

“Entre o dizer e o fazer: reflexões sobre Austin”  

“A miragem da linguagem pura”  

“Gramática e poros”  

“O avesso do texto”   

“(Im)plicar. (Ex)plicar. Entender !”  

“Tecer o texto!”    

“O exercício do poder na escola”  

“A Poética de Aristóteles”   

“O projeto de educação estética de Schiller”  

“O Claro-Escuro de Schelling”     

“Heidegger e a poesia”     

“As palavras da filosofia  moderna”    

“A obra valida o método? Reflexões sobre Descartes” 

“Sobre Kant e a História da Razão”    

“Espinosa e a crítica da superstição”    

“O naturalismo de Hume”    

“A doutrina-da-ciência na Nova Methodo de Fichte”   

“Rousseau e a crítica da civilização”     

“Estado de guerra e guerra, em Rousseau”

“La parole de Bergson: ‘je suis arrivé à lá psychologie, mais n’en suis pas parti’ ”  

“Heidegger contra Descartes”   

“A crítica nietzschiana da metafísica”   

“A confissão de Wittgenstein”   

“Crítica filosófica da publicidade”  

“Crítica filosófica da propaganda” 

“Qual propaganda?”  

“A ‘publicidade’ e a servidão voluntária”  

“A não-filosofia de Maritain”  

“A resposta da sombra a Platão” 

“Rádio, televisão e imaginação”  

“A(s) ética(s) profissional(ais)  contra  A Ética”     

“Narrar. Descrever. Dissertar”  

“Língua Portuguesa: instrumento  ou matéria-prima?” 

“Não dizer a verdade equivale a  mentir?”      

“O Emílio  ‘pós-autismo’ e os males da civilização” 

“Rousseau e o antídoto da civilização” 

“Como operar uma bibliotroca?”  

“Clube dos Amigos da Natureza”  

“Clubes de Leitura”    

“Hemeroteca e Internet”  

"Meu caderno de dívidas: Marilena Chaui "

"Rubens Rodrigues Torres Filho, Insuperável!"

"Um Vestibular Inesquecível: Lívio Teixeira, Bento Prado Júnior e  Ruy Fausto"

"Meu amigo Primo Alfredo Brandimiller"

"De Soure à Genève"

"Meu vizinho Paulo Freire"

"Il nome del padre! "

"Carmine, il rinnegato ! Alla ricerca di tempo riscoperto “

"La rhétorique de Piaget"

"Truth / Lie: a delicate relationship!"

"Mein Ziel" 

"La tragedia de la calle Joazeiro"

“Memórias objetivas”

"25 de outubro de 1975, na hora do espancamento e da morte..."

"Lenda de uma dívida II "

"Jacques Montangero !"

""Jean Starobinski vis-à-vis"

"Todos pela educação ...! Qual educação?"

"Filhos para quê..? Ah! o Pedro Pedreiro!"

"O que é ideologia, jamebol...?"

"Ministério da Educação ou do Ensino?"

"De Pombal a Passarinho, sem esquecer do Vasconcellos ..."

"O Juiz Polemarca na Capital" 

"A honra e a riqueza"

A ESCRITA FILOSÓFICA - MODOS DE FAZER FILOSOFIA

Como escrevem os filósofos?

 

“Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.”  Fernando Pessoa

Pretendo mostrar o caráter plural da Filosofia no que tange às diferentes texturas discursivas, elidindo a constantemente reclamada separação entre conteúdo e forma, para exibir outras falas faladas ou falantes, no âmbito de diferentes línguas filosóficas, sempre sob o signo da linguagem filosófica.

Filósofos, ao longo da história, concebem Filosofia diferentemente; pertencem a variadas “correntes”, “linhas”, escolas, comunidades ou as seguem; são de uma época ou com ela se identificam; operam no interior de uma área ou domínio; e, notadamente, fazem Filosofia de modo singular, reafirmando, contestando ou inaugurando procedimentos.

A escrita filosófica não sendo homogênea, não correspondendo a Filosofia a um continente de terras contínuas, antes havendo ilhas, não existindo garantia de uniformidade no trabalho do filósofo, não proclamando a Filosofia, mas as filosofias, investigando, em suma, os diferentes fazeres filosóficos, trago para o debate tanto os filósofos sagrados ou consagrados quanto os marginalizados, na expectativa de habilitar ou, quando for o caso, reabilitar o estatuto de experiências filosóficas que não se enquadram numa determinada tradição ou, melhor, na tradição que o Ocidente, grosso modo, privilegiou.

Filósofos escrevem, embora o mais famoso dos primeiros não o tenha feito. Como escrevem? O que a linguagem deles tem de especial? Como montam ou armam seus discursos? A favor de quem escrevem? Contra quem escrevem? Por que a maioria parece privilegiar a argumentação cerrada, preferindo o tratado, geralmente operando de modo demonstrativo e segundo um expediente geométrico?

Meu estudo pretende mostrar como, ao longo da história, mudaram as operações discursivas dos filósofos ou dos chamados pensadores, examinando seus procedimentos criadores e expressivos, suas opções metódicas, seus recursos lógicos ou retóricos. Em alguns, o texto bem urdido, estruturado, sistêmico; noutros, o texto não-estruturado ou semi-estruturado, não-sistêmico. Há os que demonstram à moda dos geômetras e os que mostram nem sempre com a intenção de provar, preferindo a linguagem biológica à física ou físico-matemática. Uns são téticos; outros antitéticos ou parentéticos. Uns preferem o aforismo, a carta, o ensaio; outros, o diálogo, a conferência, as notas de aula, as notas de trabalho. Alguns mostram a cozinha e se deixam ver preparando suas iguarias. Outros, exibem somente o prato feito.

Há também a não-filosofia dos poetas, pintores, dramaturgos e a dos não-filósofos que fazem filosofia, bem como a filosofia dos filosofantes, dos filo-filósofos etc. Podemos ainda observar como filósofos elegem seu leitor ao escreverem para alguém ou contra alguém, atacando, defendendo, defendendo-se; como leem seus predecessores ou seus contemporâneos; como pontificam e, quando é o caso, como são ortopédicos, operando pedagogicamente; como fabricam palavras, conceitos, termos, categorias, metáforas etc.

Como lembra Rubens Rodrigues Torres Filho, em Ensaios de Filosofia Ilustrada, Editora Brasiliense, São Paulo, 1987, pág. 11, “O sentido da palavra ‘filósofo’ não é unívoco. Tomá-lo como se fosse, como se estivesse em questão uma mesma essência quando se trata do fisiólogo pré-socrático, do teólogo da Idade Média ou do iluminista do século XVIII, por exemplo, é perder de vista, nessa abstração, toda a dimensão histórica de que as diferentes espessuras da sociedade e do discurso investiram sucessivamente a figura do pensador. Aristóteles e Diderot não são ‘filósofos’ no mesmo sentido, e, em cada tempo, o nome filósofo define uma função diferente.”

Não se pense, todavia, que as diferenças se dão apenas na concepção que o filósofo ou pensador tem do seu próprio trabalho, de sua função social ou do que seja a Filosofia. O que importa aqui é como ele faz Filosofia, mesmo quando renuncia ao nome de filósofo, ainda quando zomba da Filosofia e, sobretudo, quando não se serve da maquinaria ou do ferramental, das categorias ou dos operadores lógicos que uma determinada ou vitoriosa Filosofia estabeleceu como condição de êxito.

O fisiólogo pré-socrático, o teólogo da Idade Média, o iluminista do século XVIII ou, para continuar com os exemplos de R. R. Torres Filho, o etnólogo Claude Lévi-Strauss, o psicanalista Sigmund Freud ou, ainda, acrescento, o biólogo-epistemólogo Jean Piaget (que estudei em Piaget Entre a Psicologia e a Filosofia), o físico Albert Einstein (estudado por Michel Paty em Einstein Philosophe), o dramaturgo Diderot (estudado por Luís Fernando Franklin de Matos em O Filósofo e o Comediante), o poeta Carlos Drummond de Andrade (estudado por Cristiano Perius em Retinas Fatigadas), entre muitos casos que gosto de explorar, não são filósofos no mesmo sentido.

O que muda de um para outros? É só o que cada um concebe como filosofia? É o compromisso, se é que isto existe mesmo, com uma “corrente” ou “linha” filosófica, sendo, talvez, esse compromisso resultante da gestação no útero da filosofia que o pariu? É a inserção na época ou o pertencimento a ela que, inexorável, marca ou “influencia” o filósofo em formação? É a área ou o domínio que o filósofo em formação escolhe ou, muitas vezes, é obrigado a escolher? É bom lembrar que parece haver mais filósofos disso ou daquilo, filósofos da linguagem, da arte, da ciência etc. do que, digamos, simples filósofos!

Entre os filósofos que fizeram e fazem a história da Filosofia, alguns operam metaforicamente; outros, metonimicamente. Uns operam disfarces, véus de discrição, às vezes criando, no leitor, a “certeza” da contradição que os habitaria. Há fundacionistas e há não-fundacionistas. Há (poucos) bons leitores de seus predecessores ou contemporâneos. Em contrapartida, há (muitos) maus leitores. É o caso de se examinar, por exemplo, Bergson leitor de Kant, Heidegger leitor de Descartes, M. Merleau-Ponty leitor de Descartes, Descartes leitor de Aristóteles, Agostinho leitor de Platão, Tomás de Aquino leitor de Aristóteles, Kant leitor de Hume. O que importa observar nessas leituras não é tanto o que o leitor-filósofo mantém ou censura, mas o que ele faz com o que lê. Porque há, bem entendido, leitores que mantém as palavras mas cunham conceitos, daí a aventura daquelas, a migração destes.  Se, por um lado, há os que se dizem filósofos, sem o serem – mas o que é mesmo ser filósofo? - por outro lado, há os que não se dizem filósofos, até porque não estão preocupados com a designação, mas o são, segundo uma certa espécie de leitor. Há os que se dizem não-filósofos e fazem boa ou verdadeira filosofia. Mas o que é ou seria isto – boa ou verdadeira filosofia? Há os que, mesmo não fazendo filosofia, pretendem dizer o que ela é ou deveria ser. E os que fundam filosofia. São inauguradores. Ou portadores, para lembrar uma expressão cara a Antonio Cândido. E, entre estes, os que, inaugurando o que concebem ser a verdadeira Filosofia, propõem o novo nome. É o caso de A doutrina-da-ciência, de Fichte.

Tenho um tema (Modos de Fazer Filosofia), um problema (Como escrevem os filósofos, se cada um deles, mesmo quando situado numa tradição, inserido numa escola, aderente a uma chamada “corrente” ou “linha”, tributário de uma época, compromissado com a mestria de seu “formador”, impregnado de idéias, palavras ou conceitos bebidos no berço, ainda assim reage (no sentido de reação apontado por Jean Starobinski), rompe um paradigma (aqui, não na acepção vulgarizada, mesmo entre intelectuais, mas em um dos fortes usos legitimados por Thomas Kuhn), nega influências (em diversos significados) e acomoda (na linguagem piagetiana) o que assimilou, inaugurando um outro modo de fazer filosofia?) e uma tese (a atividade filosófica, mesmo quando se dá exclusivamente na e pela escrita, ao longo da história, não cabe apenas na classe da razão argumentativa, com privilégio do conceito e da categoria; extrapolando a matriz socrático-platônica ou o contramolde cartésio-kantiano, ela se espraia por outros continentes ou, melhor, ilhas, em que se deixa ver “na forma de fragmentos, poemas, diálogos, cartas, ensaios, confissões, meditações, paródias, peripatéticos passeios”, como explica R.R. Torres Filho, no belo texto que abre a Biblioteca Pólen, da Editora Iluminuras, encontrado, por exemplo, em A Farmácia de Platão, de Jacques Derrida, editada em 1991.

O que me interessa aqui é mostrar o que está implicado na trama de textos de vários filósofos que não fazem filosofia regrados por “monopólios de Escolas” ou daqueles que, ao lado de exposições, demonstrações ou provas escolares, explodem formas, experimentam matérias novas, instituem domínios, abrem caminhos, exploram territórios antes dominados por outros senhores etc.

Procuro a obra singular, mas marcada pela pluralidade, de um conjunto de filósofos, grandes ou pequenos, pouco importa; é a escrita filosófica, ainda quando o filósofo se diz não-filósofo, ou zomba da filosofia e dela tenta se distanciar nominal e territorialmente. Neste caso meu corpus laborandi é constituído, em princípio, por textos antológicos, os chamados indispensáveis, aqueles que os estudantes são praticamente obrigados a ler (como é o caso das Criticas de Kant, apenas por exemplo), e por textos desprezados, aqueles que um outro especialista estuda (também apenas por exemplo, como é o caso da Dióptrica de Descartes).O que pretendo mostrar é que às vezes há mais filosofia fazendo-se (como diria Merleau-Ponty a propósito de Bergson), em textos tradicionalmente considerados pouco ou nada filosóficos, de um ponto de vista metafísico ou epistemológico, do que naqueles que a longa prática acadêmica, didática ou não, já canonizou.

Faço, entretanto, remissão a obras literárias, com ou sem densidade filosófica e, com certeza, a textos científicos, tanto das áreas chamadas humanas como das catalogadas como ciências da natureza e das caracterizadas, talvez impropriamente, como “exatas”.

Opero no sentido de percorrer vagarosamente, como manda o bom conselheiro filosófico, Merleau-Ponty, por exemplo, um caminho já aberto por R.R. Torres Filho, mestre por excelência na arte de explicar textos, decifrador singular das mais intricadas formulações fichtianas, poeta fértil, tradutor refinado de olho agudo e, acima de tudo talvez, um espírito livre.   Caminho também num território parcialmente mapeado por Luís Fernando Franklin de Matos, notadamente nos domínios do XVIII francês.  Não posso deixar de citá-lo para mostrar, com agradecimentos antecipados, a dívida já contraída: “no século XVIII, a filosofia se acomoda não apenas ao tratado rigoroso, mas também ao diálogo, ao romance, ao conto, à carta, ao ensaio, à peça de teatro, ao verbete de dicionário. Tal diversificação exprime a certeza de que a filosofia não deve ser uma controvérsia entre especialistas, mas intervenção nos destinos da cidade, na vida e na felicidade dos homens.” L.F. Franklin de Matos, O Filósofo e o Comediante, Editora UFMG, 2001, págs.196/197. 

Julgo que este pequeno curso tem singularidades que não posso deixar de imediatamente revelar. Não leio um autor sob a perspectiva nem com a expectativa da influência. Nele leio respostas a questões que outros quiseram ter resolvido, o que ele concebe; não meras heranças.

A história da Filosofia ou, melhor, das filosofias, tanto de um ponto de vista de longa duração quanto de um que considere a breve duração, tanto na perspectiva diacrônica quanto na sincrônica mas, principalmente, na interseção destas duas últimas, parece ser um diálogo entre pensadores ou autores que abrem questões fechadas ou dadas por tal e fecham – pensam fechar – ou resolvem questões que predecessores ou coetanos deixam abertas.

Assim, pois, rejeitando o que chamam de influência ou, quando é o caso, substituindo essa pretensão pela da convergência, proponho liberar o autor da condição corriqueiramente trivial de herdeiro intelectual ou mero tributário de matrizes teóricas ou modas operatórias de alguma tradição filosófica, para que seu papel de contestador, criador ou inaugurador se torne visível e eficaz.

Como disse alhures, não se trata de desvinculá-lo de grandes quadros conceituais que fizeram o políptico da história do pensamento ou da cultura. Muito pelo contrário, inserindo-o no constante movimento das idéias como articulador de uma operação de dupla face negação/criação, pretendo, com esse olhar, dar-lhe a dimensão de sua singularidade, na emergência de sua própria obra.

Não leio nem faço a história do passado para o presente, como é costumeiro, mas ao contrário. Por essa razão, não posso nem devo dizer que um autor, num determinado passado, já fazia ou dizia o que um outro, num certo futuro, ou hoje, por exemplo, faz ou diz. O póstero não é medida, muito menos algoritmo de progresso, seja lá o que isto signifique. E como vejo a obra (dito em francês, seja ouvrage, seja oeuvre) de um autor enquanto discurso, examino este nas suas multifaces, observando, se tanto, as diferentes operações de linguagem que o cifrador realiza. Daí porque trabalho para discriminar procedimentos, atento a metáforas, metonímias, elipses, anagramas etc., recusando leituras que, às vezes com muita simplificação e bastante literalidade, cuidam apenas de mostrar o preto-no-branco, ignorando a lateralidade da escrita e, de resto, o branco-no-preto, as entrepalavras, mais importantes que as entrelinhas tão difundidas no dialeto pseudo-intelectual.

Minhas leituras ou releituras, neste caso, são guiadas pelo espírito filosófico, amparado pela experiência na análise literária e nos estudos linguísticos. Embora não seja um filósofo cercado de literatura por todos os lados como Bento Prado Júnior, na feliz imagem construída por Paulo Arantes, julgo-me preparado, após muitos anos de magistério, pesquisa e orientação no âmbito das letras, artes, linguagens e filosofia, para enfrentar esse desafio que, no fundo, consiste em visitar ou revisitar certos autores que são filósofos sem o saberem (evoco aqui Philosophe sans le Savoir, de Michel-Jean Sedaine peça de teatro de 1765) e, especialmente, setores ou aspectos considerados menos filosóficos dos grandes clássicos.

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